O desafio
A atualização da Norma Regulamentadora NR1, com vigência a partir de 2025, incluiu exigências explícitas de identificação e gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Para empresas acima de determinado porte, isso significou obrigação de avaliação periódica, plano de ação documentado e evidências disponíveis para fiscalização.
O cliente operava com 340 colaboradores distribuídos em três unidades. O processo de RH para bem-estar psicossocial existia no papel: uma pesquisa de clima anual em formulário do Google, resultados consolidados manualmente em planilha, sem análise estruturada e sem ciclo de ação. Quando a NR1 atualizada entrou em vigor, a lacuna entre o que o processo era e o que precisava ser ficou evidente.
Três problemas tornavam a automação não trivial:
Sensibilidade dos dados. Dados de saúde mental e bem-estar psicossocial exigem cuidado especial em armazenamento, acesso e anonimização. Um sistema que expõe quem respondeu o quê para a gestão direta destrói a confiança e invalida os dados.
Heterogeneidade dos colaboradores. O quadro incluía desde operadores de linha de produção (acesso limitado a dispositivos digitais) até equipes administrativas com notebook próprio. O canal de coleta precisava funcionar para os dois perfis.
Requisitos legais em evolução. A regulamentação ainda estava sendo interpretada por especialistas em segurança do trabalho. O sistema precisava ser adaptável sem reengenharia.
A solução
Coleta e anonimização
A coleta de dados acontece via formulário web responsivo com link enviado por e-mail e WhatsApp, no canal escolhido por unidade. Para colaboradores sem acesso a dispositivo pessoal, tablets nas salas de descanso servem como ponto de coleta com sessão isolada.
A anonimização é estrutural, não opcional: o sistema armazena respostas individuais vinculadas a um identificador aleatório gerado por sessão. A tabela de correspondência entre identificador e colaborador real existe apenas para fins de recontato em caso de sinalização de risco crítico, com acesso restrito a dois perfis no sistema (RH sênior e segurança do trabalho). A gestão direta nunca tem acesso a respostas individuais, apenas a agregados por equipe com mínimo de 5 respondentes para evitar inferência.
Análise e classificação de risco
As respostas passam por dois níveis de análise.
Análise quantitativa: indicadores calculados automaticamente por dimensão (demanda de trabalho, controle, suporte social, reconhecimento, clareza de papel, conflito trabalho-vida). Cada dimensão tem threshold configurado pela equipe de segurança do trabalho do cliente, calibrado contra benchmarks setoriais.
Análise qualitativa: campos abertos das avaliações passam pelo Claude 3.5, que identifica temas recorrentes, sinaliza linguagem indicativa de risco elevado (sem nominar o respondente) e gera um resumo estruturado por equipe. O modelo não toma decisão: organiza o que os colaboradores disseram de forma que o profissional de RH possa ler em minutos, não horas.
class RiscoPsicossocial(BaseModel):
dimensao: str
score_normalizado: float # 0-100
nivel_risco: Literal["baixo", "moderado", "elevado", "critico"]
temas_identificados: list[str]
requer_acao_imediata: bool
justificativa: str # gerada pelo modelo, sem PII
Quando requer_acao_imediata é verdadeiro, como linguagem sugestiva de sofrimento psíquico severo, o sistema dispara notificação para o responsável de RH com protocolo de acolhimento. O respondente recebe uma mensagem com recursos de apoio disponíveis na empresa, sem expor que foi identificado.
Ciclo de gestão e evidências
O módulo de gestão fecha o loop exigido pela NR1: a partir dos resultados de avaliação, o sistema gera automaticamente um rascunho de Plano de Ação com prazo, responsável e critério de verificação para cada risco identificado acima do threshold.
O RH revisa, ajusta e aprova o plano dentro da plataforma. O histórico de avaliações, planos de ação e comprovantes de execução fica registrado com timestamp e responsável, exatamente o que um fiscal do trabalho pedirá numa auditoria.
O n8n orquestra os fluxos periódicos: disparo de ciclos de avaliação, lembretes para colaboradores que não responderam, alertas de prazo de planos de ação em aberto, e relatórios semanais automáticos para a coordenação de RH.
Interface
A interface foi desenvolvida em Next.js com dois modos de acesso: o painel do colaborador (somente coleta, design simples e rápido) e o painel do RH (dashboard de indicadores, gestão de planos, exportação de evidências para auditoria).
O design do painel do colaborador foi deliberadamente despojado: sem gamificação, sem barra de progresso que cria pressão, sem linguagem corporativa que gera desconfiança. A taxa de resposta chegou a 91% no primeiro ciclo, acima da meta de 80% estabelecida pelo cliente.
Resultados
A redução de 8× no tempo de consolidação foi medida comparando o processo anterior (consolidação manual de planilha, 2 a 3 dias por ciclo) com o processo automatizado (dados disponíveis em tempo real, relatório gerado em 4 minutos após encerramento do prazo de coleta).
A auditoria interna conduzida pelo responsável de segurança do trabalho do cliente, seguindo os critérios da NR1, não encontrou não-conformidades de processo ou documentação. O sistema passou a ser usado como referência interna para as demais obrigações de registro da norma.
O que o cliente destacou como ganho não esperado: a visibilidade de problemas que existiam mas não tinham nome. Duas equipes apresentaram scores elevados em “conflito trabalho-vida” que, sem o processo estruturado, nunca teriam sido identificados sistematicamente. Ambas receberam planos de ação, e os scores melhoraram no ciclo seguinte.